Corpo e Mente

O trauma passa entre gerações? O que a ciência diz

2/9/2026
Kurotel
O trauma passa entre gerações? O que a ciência diz

O temperamento da avó, que ninguém na família contrariava. A ansiedade do pai, que atravessou a casa inteira sem nunca ser nomeada. Em algum momento, quase todo mundo se pergunta se aquilo que sente tem raízes mais antigas do que a própria vida.

A neurociência tem uma resposta para essa pergunta, e ela é mais precisa do que o senso comum sugere. O médico Bruno Vianei, da equipe técnica do Kurotel, explica que o que se transmite entre gerações não é a memória de um evento traumático, mas uma predisposição biológica: uma programação neuroendócrina de hipervigilância e maior vulnerabilidade ao estresse. Ninguém herda a lembrança de uma guerra vivida pelos avós nem a dor de uma perda específica. O que pode ser herdado é um sistema nervoso calibrado para reagir de forma mais intensa às ameaças e essa calibragem pode ser modificada ao longo da vida.

 

O que é herdado, afinal?

Segundo o Dr. Vianei, a sequência do DNA não muda. O que se altera é a forma como os genes são expressos, por meio de marcas epigenéticas, metilação do DNA, modificações de histonas e microRNAs presentes nas células germinativas. "O que é herdado não é a memória da vivência em si, mas uma programação neuroendócrina de hipervigilância e maior vulnerabilidade biológica ao estresse", explica o Dr. Vianei.

Estudos populacionais conhecidos, como os que acompanharam sobreviventes da fome holandesa e do Holocausto, e pesquisas pré-clínicas indicam que o trauma parental altera o funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, o sistema que comanda a resposta ao estresse, e a sinalização dos hormônios envolvidos nesse processo na descendência.

 

Como o ambiente da gestação entra nessa conta?

De forma direta. O estresse crônico e os conflitos familiares vividos pela gestante elevam os níveis circulantes de cortisol e de substâncias inflamatórias no organismo.

Dr. Vianei destaca que parte desse cortisol materno atravessa a barreira placentária e participa da programação do cérebro fetal em desenvolvimento. Na prática, isso altera a densidade dos receptores responsáveis pela resposta ao estresse em regiões como a amígdala e o hipocampo, o que equivale a ajustar o termostato do sistema nervoso do bebê para reagir de maneira mais acentuada a ameaças depois do nascimento.

Vale dizer que biologia e ambiente andam juntos: a convivência familiar segue moldando padrões de comportamento e respostas emocionais muito depois do parto.


Onde o trauma deixa marcas no cérebro?

Em várias regiões, e não em uma única "área do medo". A amígdala, responsável por detectar ameaças, pode se tornar hiperativa e interpretar estímulos neutros como perigosos. O córtex pré-frontal, que regula emoções e decisões, pode ter comprometida a capacidade de conter respostas de medo. Já o hipocampo, essencial para contextualizar memórias, pode ter seu funcionamento alterado, o que dificulta distinguir o que é passado e o que é presente.

Essas áreas não atuam isoladamente: integram redes cerebrais mais amplas que detectam estímulos relevantes e modulam respostas. Um trauma pode desequilibrar essas redes e levar a percepções distorcidas da realidade.

Ainda assim, não existe uma assinatura cerebral única para o trauma, as alterações variam bastante entre pessoas e tipos de experiência.


Quais sinais podem indicar essa sensibilidade na vida adulta?

De acordo com o Dr. Bruno, eles costumam aparecer no corpo antes de serem nomeados. Entre os mais descritos na prática clínica estão:

Mas atenção, nenhum desses sinais, isoladamente, define um quadro. Eles indicam a necessidade de uma avaliação profissional, não um diagnóstico.

 

É possível reequilibrar essas predisposições?

Sim. As marcas epigenéticas são dinâmicas e reversíveis, e o cérebro mantém a capacidade de se reorganizar, a neuroplasticidade, ao longo de toda a vida. A  modificação dessas predisposições acontece por caminhos que se somam.

Dr. Bruno destaca que o primeiro é o estilo de vida. Sono adequado, alimentação anti-inflamatória e exercício físico estimulam o BDNF, fator ligado à plasticidade cerebral, e modulam a neuroinflamação.

O segundo são as práticas de autorregulação. Meditação, biofeedback de variabilidade cardíaca e terapias corporais fortalecem o tônus vagal e remodelam a comunicação entre amígdala e córtex pré-frontal.

O terceiro é relacional e cognitivo. Experiências de vínculo seguro alteram a sinalização neuroquímica e a própria expressão dos receptores de estresse, o que significa que relações reparadoras têm efeito biológico, e não apenas emocional.

 

Que tipo de acompanhamento ajuda mais?

O que enxerga a pessoa por inteiro. Segundo o Dr. Bruno, a abordagem de maior sucesso é multidisciplinar e integrativa, voltada a compreender a história de vida, a cultura, a família, a saúde e as dinâmicas de adoecimento de cada um.

Na prática, isso costuma envolver psicoterapia focada em trauma, com abordagens que trabalham a regulação do sistema nervoso autônomo além do processamento cognitivo; avaliação médica e nutricional voltada ao microbioma intestinal, a eventuais deficiências de micronutrientes e à modulação metabólica e hormonal, com o objetivo de reduzir a inflamação de baixo grau; e práticas de mente-corpo, como a coerência cardíaca, que recondicionam a resposta parassimpática.

Mas atenção, qualquer suplementação ou intervenção deve partir de avaliação individual, não existe protocolo único, e os resultados variam de pessoa para pessoa.

 

Perguntas Frequentes

 

Isso significa que os traumas são "genéticos"?

Não no sentido tradicional. A sequência do DNA não é alterada. O que se descreve é uma predisposição biológica, ligada à forma como os genes são expressos e moldada por fatores familiares e ambientais combinados.

Herdar essa predisposição significa que vou desenvolver ansiedade? 

Não. Predisposição não é destino. Ela indica maior sensibilidade dos sistemas que regulam medo e estresse, e essa calibragem pode ser modificada ao longo da vida.

O estresse durante a gestação prejudica o bebê? 

O estresse crônico eleva o cortisol materno, e parte dele atravessa a placenta e participa da programação do cérebro fetal. É um dos motivos pelos quais o cuidado com a saúde emocional da gestante tem consequências que vão além dela.

É possível reverter essas predisposições?

Em boa medida, sim. As marcas epigenéticas são reversíveis e o cérebro mantém a neuroplasticidade ao longo da vida. Sono, alimentação, exercício, práticas de autorregulação e vínculos seguros atuam nesse reequilíbrio, sempre com acompanhamento profissional.

Cuidar de mim muda alguma coisa para os meus filhos?

Um adulto com estratégias eficazes para lidar com o estresse cria um ambiente mais seguro para quem convive com ele. O cuidado de si tem efeito que ultrapassa o indivíduo.

Como o Kurotel pode ajudar

Reconhecer um padrão que se repete na família é o passo mais decisivo para interrompê-lo. "A sua hereditariedade representa apenas uma predisposição, não um destino pré-determinado", afirma o Dr. Bruno Vianei. O Método Kur oferece esse caminho de reequilíbrio de forma estruturada, articulando os cinco pilares que o orientam desde 1971: o Relaxamento, com técnicas de manejo do estresse; o Equilíbrio, com acompanhamento profissional e práticas de autoconhecimento; o Alimento, que sustenta a saúde cerebral e o equilíbrio bioquímico; o Movimento, que modula neurotransmissores e reduz a inflamação; e a Água, com as propriedades terapêuticas da hidroterapia.

Em Gramado, essa vivência acontece na imersão residencial completa, com a equipe multidisciplinar acompanhando cada etapa e avaliando a mesma pessoa de forma integrada. No Kur Wellness São Paulo, o mesmo cuidado chega em formato de consultas avulsas, para quem quer iniciar esse percurso sem sair da rotina da capital. Um formato conduz ao outro.

Se você reconhece em si um padrão que se repete e que vem interferindo na sua rotina, buscar acompanhamento profissional é sempre o primeiro passo.

Formado pela Universidade Federal do Amazonas, em 2018, e pós-graduando em Medicina Funcional Integrativa pela Sociedade Brasileira de Medicina Funcional Integrativa (SBMFI) - CRM-RS 48.494

Leia também