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Obesidade abdominal e saúde mental se influenciam nos dois sentidos. A gordura visceral, que fica entre os órgãos do abdômen, libera substâncias inflamatórias que podem chegar ao cérebro e afetar humor, motivação e cognição. O estresse crônico e a depressão, por sua vez, favorecem o acúmulo dessa mesma gordura. Segundo o Dr. Gladistone Coghetto Junior, da equipe técnica do Kurotel, é por isso que o tratamento funciona melhor quando se cuida do peso e das emoções ao mesmo tempo.
O que é gordura visceral e por que ela é diferente da gordura subcutânea?
A gordura visceral é a que fica dentro da cavidade abdominal, envolvendo e se distribuindo entre os órgãos. A gordura subcutânea fica logo abaixo da pele. De acordo com o Dr Gladistone, a diferença mais importante está na atividade metabólica. Os adipócitos da gordura visceral são maiores e mais vascularizados, têm maior atividade lipolítica e mais receptores para glicocorticóides, e o tecido recebe uma infiltração maior de células do sistema imune. Por isso, quando aumenta em excesso, a gordura visceral passa a se comportar como um tecido metabolicamente disfuncional, com efeitos hormonais e inflamatórios no organismo.
Por que a gordura visceral é considerada inflamatória?
Porque, depois que o tecido adiposo subcutâneo atinge o limite de armazenamento, o corpo passa a depositar mais gordura visceral, além de gordura em locais inadequados. Esse tecido visceral aumentado recruta células inflamatórias, especialmente macrófagos e células T pró-inflamatórias, o que leva à produção de mediadores como IL-6 e TNF-α e a alterações em adipocinas como a leptina e a adiponectina.
O resultado é uma inflamação sistêmica crônica de baixo grau. Ela está relacionada ao maior risco cardiovascular, à resistência à insulina, a alterações da glicemia, à dislipidemia e à disfunção vascular.
Como a inflamação da gordura visceral chega ao cérebro e afeta o humor?
Por sinais metabólicos e inflamatórios. As citocinas produzidas em maior quantidade na obesidade podem sinalizar através da barreira hematoencefálica e ativar a micróglia, uma das principais células de defesa do sistema nervoso central, o que favorece um estado de neuroinflamação.
Essa inflamação pode interferir na plasticidade cerebral e em regiões importantes para memória, motivação e controle emocional, como o hipocampo e o córtex pré-frontal. Também pode alterar sistemas ligados à serotonina e à dopamina. Na prática, isso ajuda a explicar por que a obesidade visceral pode estar associada a cansaço, redução da motivação, anedonia (a perda da capacidade de sentir prazer) e pior desempenho cognitivo.
Há ainda evidências recentes de que a exposição crônica à gordura visceral se associa a maior atrofia cerebral e a pior desempenho cognitivo, independentemente do IMC.
O ciclo funciona nos dois sentidos? Como o estresse e a depressão favorecem a gordura abdominal?
Sim, e para o Dr. Gladistone “esse é um dos pontos mais importantes”. O estresse crônico e a depressão também podem favorecer o acúmulo de gordura abdominal.
Um dos principais mecanismos é a ativação persistente do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, com aumento sustentado do cortisol. O excesso crônico desse hormônio pode aumentar o apetite, favorecer a preferência por alimentos mais calóricos e estimular o armazenamento de gordura visceral. Além disso, estresse e depressão costumam vir acompanhados de menos atividade física, alterações alimentares, tabagismo e outros comportamentos que reforçam o ganho de peso.
O ciclo fica assim: estresse e depressão favorecem o aumento da gordura visceral, a gordura visceral aumenta a inflamação e essa inflamação, por sua vez, contribui para alterações de humor e cognição, o que devolve a pessoa ao ponto de partida.
Qual o papel do sono e do estresse crônico nesse ciclo?
O estresse crônico mantém o eixo do cortisol ativado e pode favorecer maior armazenamento de gordura visceral. Ao mesmo tempo, leva a mudanças de comportamento, como comer por recompensa, reduzir a atividade física e adotar hábitos menos saudáveis.
O sono participa da regulação do metabolismo, do apetite e do funcionamento emocional. Quando a pessoa dorme mal de forma persistente, fica mais difícil controlar a fome, a impulsividade alimentar, a disposição para se exercitar e a resposta ao estresse. “Não é adequado olhar para a obesidade abdominal apenas como uma questão de calorias ingeridas e calorias gastas. Sono, estresse, comportamento, metabolismo e saúde mental estão interligados”, pontua o Dr. Gladistone.
Como saber se tenho obesidade abdominal? Quais medidas e exames importam?
A medida mais simples e prática é a circunferência da cintura. De forma geral, valores acima de 102 cm nos homens e 88 cm nas mulheres indicam aumento importante do risco cardiometabólico. Populações asiáticas, por exemplo, utilizam pontos de corte menores.
O IMC continua sendo uma medida útil, mas não deve ser analisado isoladamente. Em algumas situações, a relação cintura-estatura ou a relação cintura-quadril acrescentam informação. Na avaliação clínica, o médico também procura as consequências metabólicas da adiposidade abdominal, como alterações de glicemia, perfil lipídico, triglicerídeos, HDL e pressão arterial, entre outros parâmetros conforme o contexto.
Tomografia e ressonância conseguem quantificar diretamente a gordura visceral, mas normalmente não são necessárias na avaliação de rotina. “Mais importante do que olhar apenas para o número do peso é identificar a distribuição da gordura e as complicações associadas”, frisa Dr Gladstone.
Por onde começar a interromper o ciclo: tratar primeiro o peso ou o quadro emocional?
Pelos dois ao mesmo tempo. Uma sequência rígida, com o peso primeiro e a depressão depois (ou o contrário), tem menos respaldo: a evidência favorece a abordagem simultânea.
A redução da gordura visceral, com perda de peso sustentada e atividade física, pode melhorar o perfil metabólico e reduzir processos inflamatórios. Tratar depressão, ansiedade, estresse crônico e alterações do sono, por sua vez, pode facilitar a adesão ao tratamento e diminuir os mecanismos que perpetuam o ganho de gordura. “O objetivo não é simplesmente ‘emagrecer para depois cuidar da saúde mental’. É tratar a pessoa como um todo”, afirma o médico do Kurotel.
Em muitos pacientes, pequenas mudanças já ajudam a interromper o ciclo: melhorar o sono, aumentar a atividade física, qualificar a alimentação, reduzir o excesso de gordura visceral e tratar de forma adequada os sintomas depressivos ou outras alterações emocionais, quando presentes. Existe uma comunicação constante entre tecido adiposo, sistema imune, metabolismo e cérebro, e quebrar o ciclo exige uma abordagem integrada.
Falta de força de vontade explica a dificuldade de emagrecer?
Segundo o Dr. Gladistone, não. A obesidade é uma condição complexa, influenciada por fatores biológicos, comportamentais, emocionais, ambientais e sociais, e emagrecer não depende simplesmente de força de vontade.
Muitas pessoas perdem peso por algum período e encontram dificuldade para mantê-lo. O organismo tem mecanismos que aumentam a fome e favorecem a recuperação do peso, enquanto estresse, sono inadequado, ansiedade, rotina e ambiente alimentar também dificultam a mudança de comportamento.
Para quem já tentou várias vezes, o médico orienta: “A primeira coisa é: não transforme as tentativas anteriores em prova de que você não consegue.” Ele sugere ainda trocar a pergunta. Em vez de ‘por que eu não consigo ter disciplina?’, talvez seja mais útil se perguntar: ‘o que está dificultando minha perda de peso e o que ainda não foi adequadamente tratado?’
Com essa mudança, o foco sai da culpa e vai para as barreiras, e a estratégia passa a ser individualizada, sustentável e possível de manter no longo prazo. Como resume o Dr. Gladistone: “Emagrecimento não deve ser uma batalha permanente contra a própria vontade. O tratamento deve ajudar a pessoa a trabalhar a favor da sua biologia, e não simplesmente exigir que ela lute contra ela.”
Como o Kurotel pode ajudar
No Kurotel, em Gramado, o Método Kur parte de uma abordagem individualizada e integral, com acompanhamento médico multidisciplinar. O Dr. Gladistone explica que as pessoas são diferentes entre si: em algumas, o comprometimento do humor antecede o ganho de peso; em outras, as alterações metabólicas e o excesso de peso contribuem para o surgimento ou o agravamento de sintomas emocionais. Por isso, a abordagem considera a história e as necessidades de cada indivíduo.
Mudanças de estilo de vida, embora muito importantes, também trazem um período de adaptação e desafios. Nesse contexto, o acompanhamento psicológico pode facilitar a adesão, ajudar a lidar com as dificuldades do processo e reduzir a ansiedade e os pensamentos negativos que podem surgir diante das mudanças. A atividade física, por sua vez, atua na saúde metabólica e no bem-estar emocional: perceber pequenas conquistas e uma evolução progressiva pode aumentar a motivação, a autoestima e a disposição, além dos efeitos do exercício sobre o humor.
Segundo ele, “essa integração entre saúde física, emocional e comportamental sempre fez parte da abordagem do Kurotel”. O foco está em mudanças sustentáveis e em uma melhora ampla da qualidade de vida, com a perda de peso como uma das frentes desse cuidado.
Perguntas frequentes
O que é gordura visceral?
É a gordura que fica dentro da cavidade abdominal, envolvendo e se distribuindo entre os órgãos. Diferente da gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele, ela é muito mais ativa do ponto de vista metabólico e, em excesso, passa a se comportar como um tecido disfuncional, com efeitos hormonais e inflamatórios.
Como saber se tenho obesidade abdominal?
A medida mais simples é a circunferência da cintura. Valores acima de 102 cm nos homens e 88 cm nas mulheres indicam aumento importante do risco cardiometabólico. O IMC ajuda, mas deve ser analisado junto com outras informações, como a relação cintura-estatura ou cintura-quadril e exames de glicemia, gorduras no sangue e pressão arterial.
Preciso fazer tomografia ou ressonância para saber se tenho gordura visceral?
Esses exames quantificam diretamente a gordura visceral, mas normalmente não são necessários na avaliação de rotina.
A depressão pode aumentar a gordura abdominal?
Pode favorecer. O estresse crônico e a depressão mantêm o cortisol elevado, o que pode aumentar o apetite, estimular a preferência por alimentos mais calóricos e favorecer o armazenamento de gordura visceral. Costumam vir acompanhados de menos atividade física e de mudanças na alimentação.
Dormir mal atrapalha o emagrecimento?
O sono participa da regulação do metabolismo, do apetite e do funcionamento emocional. Dormir mal de forma persistente dificulta o controle da fome e da impulsividade alimentar, reduz a disposição para se exercitar e prejudica a resposta ao estresse.
É preciso emagrecer antes de tratar a saúde mental?
A evidência favorece uma abordagem simultânea. Perder peso e praticar atividade física pode melhorar o perfil metabólico e reduzir a inflamação, e tratar depressão, ansiedade, estresse e alterações do sono pode facilitar a adesão ao tratamento.