Longevidade e Espiritualidade

Depois dos chamados “tempos escuros” da humanidade, época em que todos os fatos relacionados à vida ou à saúde eram atribuídos aos miasmas (supostos fluidos de material em putrefação causadores de doenças e maus), a sociedade buscou o realismo científico para explicar a natureza do universo. A partir da segunda metade do século XIX, a presença do mensurável e do comparável passou a ser de extrema importância para a Medicina. Milhares de aspectos físicos, mentais e muitos dos aspectos emocionais puderam ser mapeados e acompanhados. A reação causa-efeito passou a ser a única equação aceita para justificar a saúde ou a doença, como também a vida e a morte. Entretanto, a fé era abstrata demais para um pensamento concreto e moderno. Sigmund Freud chegou a dizer que religião seria uma neurose obsessiva universal e um mecanismo de defesa imaturo. Desta forma, a fé chegou a ser ignorada ou negligenciada, para não dizer ridicularizada.

Mas isto não foi suficiente para trazer o total rompimento do homem com o mundo invisível. As tradições e as igrejas se mantiveram ativas e seguiam promovendo conforto para um aspecto essencial do ser humano. Com o passar dos anos, a ciência que tem como base o questionamento contínuo, revisou seu olhar. Passou a valorizar tudo aquilo que é importante para o ser humano e com isso também, a considerar o impacto do intangível. Nos últimos 40 anos, fé, religiosidade e espiritualidade passaram a ser razão de estudos. Os resultados são incontestáveis e surpreendentes. Viver melhor pode ser atribuído à fé. Viver mais também. Em 30 anos, houve um aumento em 600% dos trabalhos científicos publicados na área da saúde e espiritualidade. Um trabalho do Journal of the American Medical Association (JAMA) mostrou que mais da metade (56%) de 2.000 médicos entrevistados acreditam que a religião e a espiritualidade têm uma influência significativa na saúde dos pacientes. Os resultados dessas pesquisas inicialmente demonstram benefícios em relação à saúde física e emocional. Para os pacientes, esta percepção é ainda mais elevada que a dos médicos. Nos Estados Unidos, uma pesquisa feita pelo Instituto Gallup encontrou que 80% dos americanos diziam que a frase “eu recebo bastante conforto e apoio de minhas crenças religiosas” era verdadeira, sendo que a partir dos 65 anos o encontrado aumentava para 87%. Em seu livro Espiritualidade no Cuidado com o Paciente, o norte-americano Harold G. Koenig verificou que 90% dos pacientes dizem que crenças religiosas e suas práticas são importantes formas pelas quais elas podem enfrentar e aceitar melhor suas doenças físicas, e mais de 40% indicam que a religião é o fator mais importante que os ajudam nessas horas.

Quando se fala em religiões, é possível imaginar que a diversidade entre conceitos e modalidades é grande, e, portanto, compreensível se questionar a validade de diferentes metodologias aplicadas à saúde. Dessa forma, um estudo da Universidade de Georgetown revisou os artigos científicos que mostravam a relação da religiosidade sobre a saúde e encontrou que 81% mostravam benefício na cura, 15% mostravam neutralidade e 4% prejudiciais. Assim, observa-se uma reavaliação da influência da espiritualidade nas condições de vida cotidiana, incluindo-se a sua participação no processo saúde-doença, conforme artigo intitulado “O impacto da espiritualidade na saúde física” publicado na Revista de Psiquiatria Clínica. Para a Association of American Medical Colleges, “espiritualidade é reconhecida como um fator que contribui para a saúde de muitas pessoas”. O conceito de espiritualidade é encontrado em todas as culturas e sociedades. Ela é expressa nas buscas individuais para um sentido último através da participação na religião e ou crença em Deus, família, naturalismo, racionalismo, humanismo, e nas artes. A Association of American Colleges coloca como sendo fundamental para acadêmicos de medicina uma formação adequada na área da espiritualidade. “Os estudantes devem ser advertidos que espiritualidade e crenças culturais e suas práticas, são elementos importantes para a saúde e o bem-estar de muitos pacientes. Eles deverão ser advertidos que é necessário incorporar esta espiritualidade, e crenças culturais e suas práticas, dentro dos cuidados dos pacientes numa variedade de contextos clínicos. Eles reconhecerão que sua própria espiritualidade, crenças e práticas, possivelmente afetarão os caminhos de relacionamento e cuidados com os pacientes.” Mas afinal, o que é espiritualidade? Moberg e Brusek (1978) propõem duas dimensões de espiritualidade, não excludentes entre si: Horizontal – Representada como um recurso interno e subjetivo, mobilizado pela experiência de doação, de fraternidade, através do contato mais íntimo consigo próprio, com a natureza, arte, poesia, ou quaisquer ideais visando bem-estar social, a solidariedade, o cuidado, a tolerância, entre outros. Vertical – Caracterizada por um movimento em direção a Deus, a um Poder Superior.

ESPIRITUALIDADE
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