Uma reflexão do psicólogo do Kurotel, Michael Zanchet.

Neste período de ansiedade e de incertezas, provocados pelo Covid-19, temos tido a oportunidade de aprendermos a cada momento. Mesmo que a cada dia haja algo novo, algumas percepções já posso elencar: a humanidade não pode mais ser a mesma; o presente é a única certeza; planejamento é mutável; o ser humano é capaz de se reinventar; a família é a base de tudo; e vivemos em um mundo sem empatia.

O universo está dando seu recado: o sol imperou no último mês, o mar no Rio Grande do Sul reconhecido pelo “chocolatão” se mostrou, pela televisão, em muitos dias, verde e cristalino, a economia mundial foi paralisada, todos nós estamos com perdas, sejam econômicas, educacionais, profissionais, afetivas e assim por diante.

Eu pude observar nesse período, a flor da minha sacada: à noite o botão da flor fecha e pela manhã ele abre. Também consegui ver a posição solar do meu apartamento, testei receitas novas na cozinha, brinquei e estudei com minha filha e assisti muitos filmes e séries.

E por falar em filmes e séries:

Me deparei com a “ La Casa de Papel”, uma série de sucesso mundial, muito bem estruturada e com uma história que prende o telespectador; e tudo que vou expressar não é uma crítica a todos nós que assistimos, mas uma reflexão e uma torcida. O mundo inteiro, na sua quase totalidade, idolatra nessa série o bandido, a inteligência do professor e o perfil antissocial dos bandidos. A cada temporada o professor conquista um policial para a quadrilha e o mundo delira nas fantasias dos bonecos. Algumas pessoas argumentam: “mas eles lutam contra o sistema!”.  Entretanto, questiono, é preciso lutar contra o sistema, fazendo o errado (roubando, matando, sequestrando)?

A história de vida dos bandidos foi difícil; verdade, tem grande peso, nos faz compreender muitos dos comportamentos na vida adulta, mas não pode servir de impunidade na idade maior. 

Essa pandemia mostrou, para mim, que o problema está nos valores que cultivamos. Estamos enquanto sociedade idolatrando o ladrão, mas lamento informar: está errado. Temos que idolatrar o mocinho, o bem vencendo o mal, a polícia.

Oxalá a série citada como exemplo se conclua no futuro com a vitória da polícia, que o sistema se modifique para o bem da nação honesta, que os bandidos sejam presos e cumpram um processo de reeducação social e que sejam devidamente punidos, pois o bem tem que vencer.

Mas, apesar de tudo…

Nesse período de confinamento, de oportunidade de aprendizado, perceba e dê a devida importância ao que é a base de tudo: sua família. Quando tudo passar, tire mais tempo para abraçar seus familiares, para estar com eles, para brincar com os filhos, netos, sobrinhos. Alimente-se corretamente, faça atividade física, cultive as amizades, desenvolva seu lado pessoal e profissional, seja menos ganancioso e pense no próximo, tem muitas conquistas que não servem para nada, e talvez, nem você queira.

Desejo que possamos, organizadamente e com orientação técnica, aos poucos recomeçar nossas vidas, com respeito e no tempo certo; que nosso organismo seja inundado por mais humanidade, empatia, honestidade, amor, respeito ao próximo, diálogo, amizade, saúde, preservação da família.